quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Que me desculpem os impacientes, mas sou virginiana - detalhista, perfeccionista e com um prazer insuspeitável na organização de "coisas" -, e gosto de retomar certos raciocínios para, só então, seguir adiante.

Há anos participei, com muita, mas rápida, paixão (como são todas as paixões) de outro blog, aquele de crítica teatral, e mesmo não sendo este o tema central, publiquei nele algumas convicções pessoais sobre o trabalho do ator.

É porque levo a sério essas impressões que por muito tempo me afastei da atuação no teatro. Também por causa de meu amor pela História - que, como em todas as histórias de amor, se prolonga e me realiza... Mas, uma vez assumida a responsabilidade de voltar a atuar, julgo conveniente relembrar metas para se construir uma rotina que, verdadeiramente, favoreça a expressividade.

Podemos dizer que é ampla, inesgotável, a discussão possível acerca da formação de um ator. Dos primeiros tempos ao presente, atuar nos palcos angariou significados e atribuições diferentes ao longo dos séculos; o papel do Teatro nas sociedades conferiu responsabilidades diferenciadas aos artistas cênicos.

Na Grécia, com sua especificidade, o maior atributo de um ator era sua voz (depreende-se que também seu porte, mas nunca se pensou no virtuosismo corporal exigido pelos teatros moderno e contemporâneo, ainda que relatos dessem conta de que Sófocles, por exemplo, o exibisse); já o período medieval contou com artesãos e cidadãos comuns, além de membros do baixo clero, na elaboração e representação de seus autos religiosos.

Os italianos da Commédia Dell’Arte - herdeiros diretos dos perseguidos artistas populares e pantomímicos romanos -, inauguraram o profissionalismo na área e exibiam impressionante desempenho corporal, visto que as inúmeras viagens impunham, muitas vezes, a “criação” de línguas abarcando fonemas de diferentes idiomas, a fim de atingir o público da heterogênea e ainda muito fragmentada (política e economicamente) Europa; além disso, eram mestres do improviso, uma vez que a Commédia era o gênero do improviso por excelência.

Por fim, a França clacissista enxergou nos atores e, sobretudo, atrizes trágicas, pessoas “especiais”, agraciadas com paixão e dom, capazes de “alcançar”, “comungar” das intenções do autor e que confundiam suas vidas com as de seus personagens, constituindo, eles também, personagens – o advento das divas e "primeiros atores".

O teatro moderno, com a ruptura que engendrou, instituiu uma nova era. O ator, re-inserido ao conjunto de elementos que compunham o palco e não mais os sobrepujando, precisou desenvolver diferentes capacidades a fim de atender às demandas de encenadores de uma época primordialmente experimental. Tudo caíra por terra; as tecnologias da virada do século XIX para o XX impôs que se repensasse a especificidade da linguagem teatral, e muitas foram as respostas (às vezes, até mesmo divergentes) que visavam a sobrevivência da mesma.

Hoje, já não sabemos designar se vivemos um teatro (como os demais segmentos artísticos) hiper-moderno ou pós-moderno; contudo, quaisquer que sejam os pressupostos do teatro contemporâneo - talvez pós-dramático, mas não só isso -, o fato é que ele não prescindirá da melhor formação possível dos atores para conquista de seus propósitos – dos propósitos da Arte - no atual momento.

Infelizmente, no Brasil, a preparação de um ator pode ser muito deficiente. Colabora para isso, por exemplo, a falta de oferta regular da disciplina nos currículos escolares – é notória a luta de arte-educadores para estabelecerem, de modo definitivo, a obrigatoriedade do ensino das diferentes linguagens artísticas, com o aprofundamento conveniente, em toda a rede escolar do País, sem sucesso.

Soma-se a isso a precariedade de seu desenvolvimento, quando esta existe; devido, principalmente, à mentalidade predatória que orienta as instituições particulares no sentido de “economizarem” na contratação de seus profissionais, o que se tem como resultado são estudantes ainda não-preparados para a responsabilidade, mas que a acatam por questões de “sobrevivência”, ministrando aulas semanais de tempo curtíssimo, insuficiente para o ensino de uma área de conhecimento, lançando mão de improvisos ad infinittum, sem saber sequer explicar por que o Teatro é uma “linguagem” - o que compromete o desenvolvimento de habilidades e competências (conforme prevê nossas diretrizes para o ensino). Os professores de Teatro, quando despreparados (e muitas vezes o são), em verdade acabam por não ensinar absolutamente nada, e, sim, lançam mão de habilidades que os formandos já apresentam, explorando-as nas apresentações obrigatórias das “datas comemorativas”.

Um comentário:

  1. Aqui, você toca, com ousadia,neste papel do arte-educador de elevar o conhecimento e as potencialidades dos estudantes-atores. Na experiência do Dulcina, isso via à cabeça como uma obsessão. Para mim, só justificava estar ali se houvesse a transformação do indíviduo ao fim do semestre.

    ResponderExcluir