quarta-feira, 30 de setembro de 2009
Dê licença, ó amigo, que eu tô me achegando...
Retardei minha visita ao blog da companhia, ciente de que escrever sobre o processo de um grupo de teatro e sobre as reflexões daí decorrentes é tarefa delicada, sensível, algo ensimesmada, que exige daquele que se dispõe a tanto tempo e apego, a fim de que possa compartilhar...
E tempo e apego não são matérias tão abundantes nos dias duros que vivemos.
Por outro lado, é justamente esta aridez material ou de ideais a maior das motivações para que nos agarremos ainda com mais força aos sonhos e à crença de que podemos revolucionar, transformar, interferir e continuar, justamente por isso, a sonhar!... Mais máquinas, velocidade, intermediários, distâncias, concreto, fios, vidros e compromissos - há que se cravar humanidade em meio à essa arena - a vida, essa caminhada severina, pede: onde a natureza não lha oferecer, crie beleza!...
... Contudo, "criar" não consiste em tarefa "fácil", não se apresenta, assim, a qualquer evocação. Do fogo surgido de gravetos ao desvendamento do DNA, verdade é que os homens inventaram toda sorte de recursos que lhes permitissem a sobrevivência, instigados ora pela necessidade, ora por uma curiosidade superiora. E as artes nasceram da comunicação, do ritual e da comunhão dos parcos recursos reunidos entre os entes de uma mesma tribo, comunidade, grupamento ou como queiramos nomear; entretanto, no decorrer dos séculos, as artes se separam do ritual e, apesar de permanecerem "comunicação", não se confundem com a noção que desta última temos nos dias atuais. As expressões artísticas geraram linguagens específicas, com "alfabeto" e "regras de uso" próprias; regras que também foram e são transgredidas à medida das necessidades e novas percepções - sobre o mundo, sobre o homem, sobre a Arte... Comparada ao fogo, a obra de arte, chama que incendeia e ilumina a vida, em verdade é um fulgor que só estala após muito atrito, tempo, forças, trabalho empregado na obtenção de calor...
Por isso, gosto de lembrar àqueles que se aventuram por um dos mais sofisticados fazeres criados pelo homem, que "criar" não consiste em processo "natural", inerente, que prescinde de conhecimento e que "brota" no âmago de cada um de nós aleatória e descontroladamente. Seja nas artes, seja nas ciências, na filosofia ou em qualquer das áreas que me possam fugir da memória no momento, a criação demanda trabalho árduo e persistente, disciplina, dedicação, conhecimento reunido - que, por sua vez, se converterão em algo novo, ao encontrarmos novos diálogos e conexões entre o que já se nos apresentava, mais ainda não havia sido relacionado entre si...
É com esse espírito - algo sonhador, algo exigente, algo determinado - que ingressei, no grupo e no blog, disposta a trabalhar... Porque o espírito criativo só se tornará afável e companheiro se lhe dedicarmos volto a dizer: nosso tempo, atenção e energias. A beleza, nas artes, resulta de trabalho árduo - mas há que se enxergar a beleza do caminho...!...
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