sexta-feira, 17 de setembro de 2010

A paixão de Honestino


Por Sérgio Maggio

A professora universitária Betty Almeida desenvolve silenciosamente um trabalho que necessita chegar, com urgência, ao público. Pesquisa a vida de Honestino Monteiro Guimarães, estudante exemplar de geologia, expulso da Universidade de Brasília por ação dos órgãos de repressão, líder estudantil e um dos desaparecidos políticos da ditadura brasileira. Paixão de Honestino, título provisório de uma biografia ainda em construção, vasculha a trajetória do rapaz que enfrentou o aparato militar na W3 Sul e no câmpus da UnB.

“Honestino nunca quis ser mártir, nem tornar-se um herói. Lutou com as forças de que dispunha, principalmente suas ideias, e viu-se jogado nas sombras da clandestinidade, sempre acreditando que tudo o que cada um fizesse acabaria juntando-se para formar algo grande e forte. Por isso, não quis partir para uma suposta segurança como refugiado político em outro país, para não deixar de cumprir o seu papel na história e, sobretudo, para não abandonar os que ficavam”, escreve Betty, que estudou na UnB e lecionou na Faculdade Federal da Paraíba.

O livro de Betty Almeida dialoga com a obra de dona Maria Rosa Leite Monteiro, a mãe guerreira que há 37 anos luta para saber onde está o corpo do seu filho. No livro Honestino, o bom da amizade é a não cobrança, ela expõe sua dor, com toda a carga subjetiva que lhe cabe, e a transforma em importante documento em prol da memória de Honestino, sequestrado, provavelmente, em 10 de outubro de 1973, no Rio, onde vivia na clandestinidade.

Cercada por dezenas de entrevistas, a pesquisa de Betty Almeida situa mais objetivamente Honestino Guimarães no contexto da época, apontando naturalmente as suas contradições. Vizinha de quadra em Brasília, ela viu o menino se transformar em líder político. Tempos depois, já na clandestinidade, encontrou-se com ele no Rio e testemunhou a vida de foragido.

“Como disse Maria Rosa, Honestino era uma pássaro que queria voar por todo o universo, um pássaro de asas amplas e inquietas, que não suportava gaiolas. Nem as grades soturnas da prisão nem as paredes invisíveis e opressivas da clandestinidade. Mesmo marcado para morrer, sabendo do cerco que se fechava em torno dele, que sua prisão era uma questão de tempo, a ânsia de viver a vida, respirar o ar livre, andar pela rua, ver o céu e o Sol acima de sua cabeça, estar perto da mulher amada e jogar uma pelada no aterro pode ter sido mais forte do que a preocupação com as regras de segurança, com o cuidado de esconder-se, encerrar-se numa clausura que talvez pudesse tê-lo protegido. Amigos e companheiros acham que ele baixou a guarda, esqueceu o quanto a ditadura era criminosa e feroz”, aponta Betty Almeida.

Infelizmente, o livro essencial de Betty Almeida não responde pelo paradeiro do corpo de Honestino Guimarães. Mas alimenta a esperança de que um dia alguém possa revelar a localização dessa caixa-preta.

sábado, 28 de agosto de 2010

Treinamento.


Treinamento Trincheira Cia de Teatro.
Demonstrações dos "animais". Edi, o condutor, demonstra seu animal.
Segundo semestre de 2009.

segunda-feira, 31 de maio de 2010

Violência policial contra o teatro

O espetáculo Rãmlet Soul, que esteve em cartaz ao longo do mês de maio no Theatro José de Alencar, sofreu de violência física e verbal, nesta terça-feira (25/05), pouco depois das 18h, sob estímulo e conivência de PMs. Os atores Junior Barreira, Saymon Moraes e Sol Mouffer foram agredidos e o ator George Alexandre e o músico Saulo Raphael ameaçados durante a apresentação da primeira parte da peça, que ocorre na Praça José de Alencar.

Inicialmente, os PMs (de nomes Geraldo, França e Lacerda) abordaram os atores de modo truculento, abusivo e confrontador, alegando que não podiam estar na rua, interpretando seus papéis de michês, apenas de toalha, o que configuraria “atentado ao pudor” – nas seis apresentações no TJA e dez apresentações na Praia de Iracema, bem como em sua participação em festivais, o espetáculo jamais teve problemas similares. Os policiais exigiram que os atores se retirassem da praça, onde a peça iniciava a penúltima apresentação desta temporada. Os atores reivindicaram por seu direito de trabalho em espaço público. Os PMs, cada vez mais agressivos, insistiram que aquilo não era trabalho, mas sim "sem-vergonhice”. Um deles, o mais velho, quando questionado pelo ator George Alexandre sobre sua postura, ameaçou-o com expressões do tipo: “não tenho medo de nada; eu nasci foi pra morrer”. O policial, abusando de suas atribuições e de sua função pública, foi aglomerando os transeuntes da praça em torno dos atores da peça, em mobilização contra o elenco (temos este registro em vídeo).

Pouco depois, sob esse clima tenso, numa das cenas peça em que os michês, em triste paródia da vida real, são expulsos de seus pontos e correm acossados, um dos PMs, novamente o mais velho, insuflou transeuntes e deu a ordem contra o elenco: “mostra pra eles o que é teatro”. Armados de porretes e de facas, os agressores aplicaram socos, tapas e pontapés nos atores Junior Barreira e Saymon Morais. Dois outros atores da peça, Yasmin Elica e Jhon Jonas, presenciaram o momento em que o policial instigou tal agressão.

A atriz da peça, Sol Mouffer, também próxima da confusão, em cena que carrega uma pedra na mão (parte do espetáculo já tantas vezes apresentada naquele espaço), foi agarrada pelo braço por um dos policiais, que, “pressupôs”que ela iria agredi-lo com o objeto. Finalmente, após a violência sofrida (sob ameaças de ser furado à faca pelos agressores), o ator Junior Barreira, ignorando que partira da polícia o comando para atacá-lo, procurou o referido efetivo policial para queixar-se do que aconteceu, e obteve esta resposta de um dos PMs: “Defender você? Não estou aqui pra lhe defender. Isto que você faz é uma baitolagem. Você mereceu". Situação que justificou as lágrimas do ator, abalado como outros artistas da peça que também sofreram agressão, incluindo o músico Saulo Raphael, que, por tentar proteger os atores da situação de perigo, fora “jurado” pelos agressores, em promessa de violência para a apresentação seguinte, nesta quarta-feira, dia 26/05. Fato que justificou que Rãmlet Soul encerrasse a temporada do TJA sob proteção de - outra - escolta policial, solicitada pela direção do teatro, num deplorável quadro de "polícia protegendo da polícia".

A “baitolagem” a que se referiu o PM instigador da agressão aos atores, e que, na sua visão, justifica tanta violência, faz parte de um espetáculo premiado nacionalmente, pela Funarte/Petrobras, bem como pela Prefeitura de Fortaleza, tendo obtido repercussão em dezenas de veículos de comunicação e que, apenas três dias antes, havia lotado o Porão do Theatro José de Alencar em plena meia-noite.

Rãmlet Soul é uma peça que procura se inserir no que a cidade é, de fato.
Será por isso que a polícia mandou bater?

Thiago Arrais
(diretor do RÃMLET SOUL)


Não devemos permitir que tal ação truculenta contra os artistas cearenses saia impune.
Divulguem tal fato para que todos fiquem cientes desse absurdo.

quarta-feira, 19 de maio de 2010

sexta-feira, 30 de abril de 2010

Monstro tarado

Vencido no julgamento que manteve a validade da Lei da Anistia, o ministro Carlos Ayres Britto não poupou críticas ao perdão dado pelo Estado aos torturadores nos anos 1970. “O torturador não comete crime político. O torturador é um monstro, um desnaturado, um tarado, é aquele que experimenta o mais intenso dos prazeres diante dos mais intensos dos sofrimentos. É uma espécie de cascavel que morde o som dos próprios chocalhos”, frisou. Para Britto, a lei não deu o perdão aos torturadores, que, segundo ele, “desonraram as próprias Forças Armadas, que não compactuavam com atos de selvageria”.

O ministro Ricardo Lewandowski considerou que os agentes do Estado “não estão automaticamente abrangidos pela anistia contemplada” e sugeriu que os juízes avaliassem caso a caso com a possibilidade de punição àqueles que cometeram crimes de tortura — para ele um crime comum, e não político. O presidente do STF, Cezar Peluso, rebateu com veemência o voto de Ayres Britto. “O Brasil fez a opção pelo caminho da concórdia. Se eu pudesse concordar com a afirmação de que certos homens são monstros, eu diria que os monstros não perdoam. Só os homens perdoam. Só uma sociedade superior, qualificada pela consciência dos mais elevados sentimentos de humanidade é capaz de perdoar”, declarou.

Peluso não poupou críticas à mudança de posição da OAB e disse não conseguir entender como “a mesma OAB venha 30 anos depois rever o seu próprio juízo como se tivesse acordado tardiamente”. “Uma sociedade que quer lutar com os seus inimigos com as mesmas armas está condenada ao fracasso”, concluiu.
Fonte: Correio Braziliense

Cabeças cruzadas

"O Brasil é devedor desses companheiros, não de armas, mas da política. Aqueles que realmente acreditaram na via do diálogo e na política como forma de construir soluções”
Gilmar Mendes


"Por incômodo que seja reconhecer hoje, a anistia, inclusive daqueles que cometeram crimes nos porões da ditadura, foi o preço que a sociedade pagou para acelerar o processo de democratização”
Ellen Grecie


"O torturador não comete crime político. O torturador é um monstro, um desnaturado, um tarado, é aquele que experimenta o mais intenso dos prazeres diante dos mais intensos dos sofrimentos. É uma espécie de cascavel que morde o som dos próprios chocalhos”
Carlos Ayres Britto

Perdão mantido a torturadores

O Supremo Tribunal Federal (STF) decidiu ontem, por sete votos a dois, manter o texto original da Lei da Anistia, conforme promulgado em 1979. Ao julgarem uma ação protocolada pela Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), os ministros da Suprema Corte negaram o pedido de exclusão do perdão dado aos agentes públicos que torturaram ou mataram durante a ditadura militar brasileira (1964-1985).

Recheado de polêmicas, o histórico julgamento foi iniciado na quarta-feira, quando o relator do processo, Eros Grau, seguiu entendimento do Ministério Público e da Advocacia-Geral da União (AGU) ao votar pela manutenção da lei, que beneficiou militares, servidores públicos, dirigentes e representantes sindicais. A legislação de 1979 deixou de fora apenas os acusados de terrorismo, assalto, sequestro e atentado.

A OAB pedia a revisão do artigo 1º da lei, que prevê anistia aos crimes “conexos” relacionados aos crimes políticos, para que o perdão deixasse de alcançar os torturadores. O tema causou divergência dentro do próprio governo federal, mas prevaleceu a posição da AGU de manter a anistia ampla e irrestrita.

Ontem, no segundo dia de julgamento, oito ministros votaram. Apenas dois se posicionaram pela revisão da lei. Prevaleceu o voto do relator, que foi elogiado pelos que o seguiram. “O ministro Eros fez o mais brilhante voto perante essa corte”, disse Gilmar Mendes. “Cumprimento o ministro Eros Grau pelo consistente voto proferido, que servirá para reflexão e alerta a gerações futuras”, anotou Marco Aurélio Mello.

Eros Grau, preso político do regime militar, alertou, ao votar anteontem, que não cabe ao Poder Judiciário revisar a lei. O papel, segundo o relator, é restrito ao Legislativo. Seguindo o voto de Eros, Cármen Lúcia alertou que a lei não pode retroagir para punir os torturadores, apesar de o artigo 5º da Constituição definir a tortura como crime “insuscetível de anistia” e imprescritível. Na década de 1970 não havia essa tipificação de crime, que era considerado, à época, lesão corporal grave.

Assim, a ministra alertou que não cabe punição para atos de tortura praticados antes de 1988, ano em que a Constituição foi promulgada. “Nem sempre as leis são justas, embora elas sejam criadas para ser”, afirmou Cármen. Por alguns instantes, o julgamento ficou empatado em dois a dois, após Ricardo Lewandowski e Carlos Ayres Britto votarem pela revisão da lei. No entanto, os demais votos definiram a questão. Além de Cármen, Gilmar Mendes, Ellen Gracie, Marco Aurélio, Celso de Mello e Cezar Peluso seguiram o voto do relator.

Mendes elogiou a postura do Congresso Nacional, que, no auge da ditadura militar, aprovou a Lei da Anistia. O mesmo Parlamento foi chamado de submisso pelo jurista Fábio Comparato, conselheiro da OAB. “O Brasil é devedor desses companheiros, não de armas, mas da política. Aqueles que realmente acreditaram na via do diálogo e na política como forma de construir soluções”, destacou Mendes.

A ministra Ellen ressaltou a importância da aprovação da lei em meio ao regime de exceção. “Por incômodo que seja reconhecer hoje, a anistia, inclusive daqueles que cometeram crimes nos porões da ditadura, foi o preço que a sociedade pagou para acelerar o processo de democratização”, observou.
Fonte: Correio Braziliense/Diego Abreu