sexta-feira, 30 de abril de 2010

Monstro tarado

Vencido no julgamento que manteve a validade da Lei da Anistia, o ministro Carlos Ayres Britto não poupou críticas ao perdão dado pelo Estado aos torturadores nos anos 1970. “O torturador não comete crime político. O torturador é um monstro, um desnaturado, um tarado, é aquele que experimenta o mais intenso dos prazeres diante dos mais intensos dos sofrimentos. É uma espécie de cascavel que morde o som dos próprios chocalhos”, frisou. Para Britto, a lei não deu o perdão aos torturadores, que, segundo ele, “desonraram as próprias Forças Armadas, que não compactuavam com atos de selvageria”.

O ministro Ricardo Lewandowski considerou que os agentes do Estado “não estão automaticamente abrangidos pela anistia contemplada” e sugeriu que os juízes avaliassem caso a caso com a possibilidade de punição àqueles que cometeram crimes de tortura — para ele um crime comum, e não político. O presidente do STF, Cezar Peluso, rebateu com veemência o voto de Ayres Britto. “O Brasil fez a opção pelo caminho da concórdia. Se eu pudesse concordar com a afirmação de que certos homens são monstros, eu diria que os monstros não perdoam. Só os homens perdoam. Só uma sociedade superior, qualificada pela consciência dos mais elevados sentimentos de humanidade é capaz de perdoar”, declarou.

Peluso não poupou críticas à mudança de posição da OAB e disse não conseguir entender como “a mesma OAB venha 30 anos depois rever o seu próprio juízo como se tivesse acordado tardiamente”. “Uma sociedade que quer lutar com os seus inimigos com as mesmas armas está condenada ao fracasso”, concluiu.
Fonte: Correio Braziliense

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